quinta-feira, 1 de agosto de 2013

parece uma outra época
ver o véu da noite
nos cobrir tão cedo

parece uma outra época
sentir o frio dos ventos
nos tocar tão cedo

não me lembrava mais
d'outros invernos tão frios

gosto de observar os pássaros
alaranjados pelo pôr-do-sol
ritmados em seus voos fraternais

gosto de admirar as pequenas coisas
o perfume do chocolate quente
e seu arrepio, na harmonização das temperaturas

gosto do uivo do vento
gosto do cheiro do incenso
gosto do inverno
porque tudo parece menos intenso

eu não consigo mais escrever, que pena

ausência

nem tudo na vida é dor
mas na maioria das vezes, algo dói


nem tudo na vida é ausência
mas em grande parte dos casos, é a falta que corrói

perdi mil coisas
e umas 
mais do que outras
perdi para a ausência

o amor não correspondido

ausente
o ciúme do amigo
ausente

a piedade pelo inimigo
presente

perdi mil coisas
em todas elas, 

tudo foram ausências

Faltaram
ou sanidade,
ou sinceridade
e se aparentemente tudo estava presente,
então ficava a saudade
que era o mesmo que a ausência de algo

por fim
perdi tudo
passou o tempo
perdi os amigos
ninguém me amou
fiquei órfão
minha juventude me deixou
perdi o viço
uma alma só, 

só desperdício

construir poemas 

é asseverar que se está ausente
absorto
onipresente

perdi mil coisas,
todas irrecuperáveis
exceto a vaga esperança
de desejar ser surpreendido...

RIVA, 31/07/2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Saída



Há dias em que acordo e procuro uma porta para sair. Uma porta que me permita sair de mim. Mudar de cômodo porque, onde estou, não mais me acomodo. Sou extremo desconforto. Talvez eu quisesse fazer como em "Quero ser John Malkovich". Entrar noutro corpo, noutra cabeça. Talvez eu quisesse ser Virginia Woolf. Outra alma, ainda que atormentada. Mas a porta está fechada dos dois lado. De fora, sou um. A impressão que os outros tem de mim. Mesmo no exercício da alteridade, ninguém consegue usurpar esse meu lugar. Intangível. Descrente. Deprimente. Vitorioso e lastimoso. Esse meu lugar: sempre visto como uma fraca impressão da verdade. Pelo lado de dentro, procuro a chave mas, nenhuma delas, nesse grande molho, abre a saída. Há chaves para a alma, para a intuição, para o amor, para a crença, para a descrença e para a dúvida. Há chaves para a ternura, para a gentileza, para as virtudes e para os defeitos. Mas não há nenhuma para a saída. Queria sair daqui de dentro. Viver outra vida, não outro personagem. Isso eu até sei fazer. Queria outro corpo, outra contemporaneidade, outros espaços, outros recortes. Posso eu ser outro? Quero abrir essa porta e sentir como seria a língua portuguesa brasileira pelos ouvidos de um estrangeiro. Seria musical também para mim? Seria agradável para mim, também? Queria sair daqui e nunca mais voltar. Esquecer o caminho. Nunca mais ter sensibilidade. Aqui dentro sei o preço que pago por ser sensível. Sinto mais. Amo demais. Aprofundo-me. No entanto, sinto muita dor.

Riva, em Lyon, 17 de junho de 2013.
É segunda. Estou distante.
E por um instante,
acordei eternamente
em berço esplêndido.

Procurei a porta
para adentrar à voz
que para alguns, destoa,
que para mim, ecoa.

Que lástima.
Não estou entre os meus.
Procurei-me e pensei em sair.
As coisas não andam boas.

As janelas, cerradas como os olhos.
Os olhos, marejados como o coração.
O coração, partido como minha solidão...
Despenco. Logo, desisto.

LYON - 17-06-2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013


“Eu me lembro de uma manhã acordando no amanhecer, havia uma sensação de muitas possibilidades. Você sabe, essa sensação? E eu me lembro de pensar: Então isso é o início da felicidade. E onde começa. E claro que sempre vai ter mais. Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Exatamente”. [“I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn’t the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then”.]
As horas



segunda-feira, 11 de março de 2013

rain




Gray clouds.
Darkness.
Strong thunder.

My mind is gray.
My heart is sad.
My soul rains.

But I need to get out ...
Crying, why?
Praying for whom?

The rain starts.
The oyster closes.
The pearl is born.
I die.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

paral3lo



tudo está cheio de vazios
a casa está todas desorganizada
a poeira se fixa sobre meu corpo
não sinto odores ou amores

tudo está cheio de nadas
de mentes não interligadas
tudo está cheio de egoísmos
a poeira se fixa sobre meus objetos
sinto pena, apenas

os bares estão cheios
os risos estão por todos os lugares
eu olho para a linha do horizonte
e sei que lá no invisível está meu lugar

mas não foi isso que planejei
mas não foi isso que sonhei
a poeira se fixou em meus pés
o vazio preenche tudo

vou me desconectar
porque não há quase nada disponível que me preencha
além da poesia, das melodias, dos paral3los
não sinto mais odores tampouco amores

RIVA - Ariranha (SP) - 21/02/2013