domingo, 30 de novembro de 2014

decesso


à espreita
aquela soturna figura nos ronda
ora anjo, ora morte
sorrateira se infiltra


à esquerda
sempre taciturna
aquela figura nos assombra
ora azar, ora sorte
ardilosa persuade

ouço um réquiem
o nevoeiro fica mais denso
espalha-se certa fragrância
talvez o de minha flor favorita

sinto o ósculo
é frio e sereno
letárgico e sedutor

ali o momento se eterniza
o instante, realmente, existe
o nevoeiro fica ainda mais denso
mas não ouço nenhum ruído
não sindo cheiro algum
estou só

travessia

RIVA - 30/11/2014 - Ariranha (SP)

domingo, 23 de novembro de 2014

há na rua



nas sombras alongadas pelo entardecer
o gato preto aparece em forma monstruosa
mas seus passos são tão leves
que nem tenho certeza se tocam o chão

a trilha sonora toca Chopin
notas alongadas e leves
chegam a um clímax virtuoso 
misto de ansiedades e êxtases

a noite espia no horizonte oposto
e uma alongada estrela cadente 
toca minha íris,  
revelando alguns sonhos incertos

há na rua, naturezas mortas
um ébrio encaixado numa sarjeta 
um ansioso ipê seco, almejando a primavera
um monstruoso céu acinzentado, 
[disformes algodões pardacentos    

o gato preto reaparece, 
não mais de forma monstruosa
suas pupilas dilatadas revelam 
a soberania da noite
enegrecida, extasiada, ansiosa, dona de tudo
a trilha agora é de chuva e de uivo de vento  

há na rua
solidões
desolhares
e o reinado do gato preto 
até a aurora

23/11/2014 - s/l
 

domingo, 7 de setembro de 2014

A queda e a perda

Caem as tardes
os crepúsculos são velozes
laranja, amarelo, púrpura, anil, lilás
e os dias perdidos
pedem pra ser esquecidos

Caem as horas
a hora morta é sempre a mais escura
na madrugada quente do interior
petróleo, grisado, prata, negro, obscuro
as noites solitárias
pedem pra ser enterradas

Perde-se tempo com falsos amores
Caímos
ou é fraqueza ou é injustiça
e só se sabe que é preciso levantar...


sábado, 30 de agosto de 2014

tão

tão perto do fim
o recomeço

tão perto de mim
mais um tropeço

tão deserto tudo enfim
que pereço

tão esperto, isso sim
foi o quanto lhe pareço

que não houve mão estendida
não houve afago
sequer abraço, em despedida



domingo, 10 de agosto de 2014

carnificina

havia gente demais
e anos demais para repassar
o tempo do ginásio
o tempo da banda marcial
de como o vento do outona era glacial

ainda lembrava da primeira festa de aniversário
do primeiro beijo, do primeiro disco da Legião
o tempo da névoa cobrindo a cidade
o tempo do amigo-secreto do final de ano
de como a paixão ocupava todo o primeiro plano

havia a sessão de cinema nos dias das crianças
[no cine Ipiranga
havia a festa de aniversário da cidade
[só brincadeiras e comilança
ainda lembro das primeiras horas melancólicas
do alvorecer da alma no fim da puberdade
dos sonhos intangíveis da mocidade

havia gente demais
gente demais para recordar
com o tempo veio a carnificina
saí matando um por um,
para, assim, retomar o eixo
abandonar o lamento
matar o saudosismo
porque não há nada
senão o presente

Ariranha, 10/08/2014 - 12h33

terça-feira, 29 de julho de 2014

ferrugem



nosso amor
por demais exposto à umidade
do pranto amargo 
do granizo parco
do soluço fraco
perdeu toda intensidade
e enferrujou

nosso amor
por demais exposto em histórias
no desastrado haicai
no decassílabo verso do soneto
no débil conto
perdeu toda a vitalidade
e morreu

nosso amor
por demais recoberto pela ferrugem
travou o maquinário
artérias, veias, músculos
e se oxidou todo
perdeu toda vicissitude necessária
que é preciso para crescer.

RIVA - 29/07/2014 - Ariranha (SP) 




sábado, 26 de julho de 2014

O dia infinito



Acorda-se e se vê a mesma textura de sempre
Os mesmos móveis nas mesmas posições
[há gerações
A tintura descascada próxima dos rodapés das paredes 
[cor de areia
O trepidar perene da veneziana do quarto de visitas
[vazio

A ansiedade deixada pelo último sonho 
[da última noite
As mesmas xícaras de café emanando 
[felizmente
fumaça, em inéditas firulas 
e nuanças de perfumes que acionam memórias infantis
O despertar.

E, aparentemente, são as mesmas gramíneas 
queimadas pelo frio que se despede
[nas alvoradas do inverno
Elas nunca aprendem a se proteger?

Os mesmos risos 
[leves risos
de um grupo de crianças à caminho da escola
e o vapor da respiração delas, flutuando e pintando
[com branco
o anil do céu  

A sôfrega corrida da mulher septuagenária
abraçada por seu cachecol cobalto
em direção à padaria
- Dois pães franceses e dois pães de queijo!
Porque com uma par de cada coisa
ela acaricia o seu velho
que ainda repousa em casa.

Uma pausa
entre dois pores do sol
e termina 
mais um dia infinito. 

RIVA - 26/07/2014 - Ariranha (SP) - Inverno

Imagem extraída do filme "A árvore da vida".