terça-feira, 11 de agosto de 2015

Um dia em sua vida



















Queria um dia inteiro de sua vida
vinte e quatros horas completas
Da zero hora
[zero hora e um segundo, 
zero hora e dois segundos,...]
horas inteirinhas
Do começo ao fim

Na hora mais escura,
em seu sono mais pesado
adentrar em seus pesadelos e sonhos
chorar ou ejacular, se preciso fosse
pelo desprazer e pelo regozijo extremos

Na madrugada cintilante,
ou na hora da pior insônia,
espreguiçar-me como você
ou tomar seu indutor de sono

Queria um dia completo de sua existência
vinte e poucas horas repletas de zelos, 
de histórias, de abismos, de ansiolíticos
vinte e poucas horas
Do começo ao fim

Ver passar o demônio, ao meio-dia
o sol ardente 
e o céu irritantemente azul anil
seu almoço, sua sobremesa, sua siesta 
ser você numa tarde qualquer duma estação qualquer

No tédio, no gozo, no torpor, no frio da barriga
Até o alvorecer do dia, 
Na queda do sol
nos raios quentes de luz 
que tocam porções longínquas de terra
queria viver um dia completo dentro de sua mente.

A noitinha chegando,
a brisa fresca contra o rosto
um vaga-lume, algumas mariposas, pernilongos, aleluias
Sentir seu desejo por comida e água
a salivação e o curto trago

O desejo sexual sentido, 
por algo novo 
ou aquele do modo automático...
Sua frustração pelo dia tedioso. 
Sua alegria por poder perceber
tantas nuanças no todo.

Queria um dia de sua vida para mim.
Vinte e quatros horas completas vividas por mim.
Da zero às vinte e quatro horas em ponto!
Bom, na verdade,
acho que queria é um dia
[durante vinte e quatro horas]
sair é de mim...
- Isso sim! 

Ariranha (SP), 10h50 

domingo, 30 de novembro de 2014

decesso


à espreita
aquela soturna figura nos ronda
ora anjo, ora morte
sorrateira se infiltra


à esquerda
sempre taciturna
aquela figura nos assombra
ora azar, ora sorte
ardilosa persuade

ouço um réquiem
o nevoeiro fica mais denso
espalha-se certa fragrância
talvez o de minha flor favorita

sinto o ósculo
é frio e sereno
letárgico e sedutor

ali o momento se eterniza
o instante, realmente, existe
o nevoeiro fica ainda mais denso
mas não ouço nenhum ruído
não sindo cheiro algum
estou só

travessia

RIVA - 30/11/2014 - Ariranha (SP)

domingo, 23 de novembro de 2014

há na rua



nas sombras alongadas pelo entardecer
o gato preto aparece em forma monstruosa
mas seus passos são tão leves
que nem tenho certeza se tocam o chão

a trilha sonora toca Chopin
notas alongadas e leves
chegam a um clímax virtuoso 
misto de ansiedades e êxtases

a noite espia no horizonte oposto
e uma alongada estrela cadente 
toca minha íris,  
revelando alguns sonhos incertos

há na rua, naturezas mortas
um ébrio encaixado numa sarjeta 
um ansioso ipê seco, almejando a primavera
um monstruoso céu acinzentado, 
[disformes algodões pardacentos    

o gato preto reaparece, 
não mais de forma monstruosa
suas pupilas dilatadas revelam 
a soberania da noite
enegrecida, extasiada, ansiosa, dona de tudo
a trilha agora é de chuva e de uivo de vento  

há na rua
solidões
desolhares
e o reinado do gato preto 
até a aurora

23/11/2014 - s/l
 

domingo, 7 de setembro de 2014

A queda e a perda

Caem as tardes
os crepúsculos são velozes
laranja, amarelo, púrpura, anil, lilás
e os dias perdidos
pedem pra ser esquecidos

Caem as horas
a hora morta é sempre a mais escura
na madrugada quente do interior
petróleo, grisado, prata, negro, obscuro
as noites solitárias
pedem pra ser enterradas

Perde-se tempo com falsos amores
Caímos
ou é fraqueza ou é injustiça
e só se sabe que é preciso levantar...


sábado, 30 de agosto de 2014

tão

tão perto do fim
o recomeço

tão perto de mim
mais um tropeço

tão deserto tudo enfim
que pereço

tão esperto, isso sim
foi o quanto lhe pareço

que não houve mão estendida
não houve afago
sequer abraço, em despedida



domingo, 10 de agosto de 2014

carnificina

havia gente demais
e anos demais para repassar
o tempo do ginásio
o tempo da banda marcial
de como o vento do outona era glacial

ainda lembrava da primeira festa de aniversário
do primeiro beijo, do primeiro disco da Legião
o tempo da névoa cobrindo a cidade
o tempo do amigo-secreto do final de ano
de como a paixão ocupava todo o primeiro plano

havia a sessão de cinema nos dias das crianças
[no cine Ipiranga
havia a festa de aniversário da cidade
[só brincadeiras e comilança
ainda lembro das primeiras horas melancólicas
do alvorecer da alma no fim da puberdade
dos sonhos intangíveis da mocidade

havia gente demais
gente demais para recordar
com o tempo veio a carnificina
saí matando um por um,
para, assim, retomar o eixo
abandonar o lamento
matar o saudosismo
porque não há nada
senão o presente

Ariranha, 10/08/2014 - 12h33

terça-feira, 29 de julho de 2014

ferrugem



nosso amor
por demais exposto à umidade
do pranto amargo 
do granizo parco
do soluço fraco
perdeu toda intensidade
e enferrujou

nosso amor
por demais exposto em histórias
no desastrado haicai
no decassílabo verso do soneto
no débil conto
perdeu toda a vitalidade
e morreu

nosso amor
por demais recoberto pela ferrugem
travou o maquinário
artérias, veias, músculos
e se oxidou todo
perdeu toda vicissitude necessária
que é preciso para crescer.

RIVA - 29/07/2014 - Ariranha (SP)