domingo, 7 de setembro de 2014

A queda e a perda

Caem as tardes
os crepúsculos são velozes
laranja, amarelo, púrpura, anil, lilás
e os dias perdidos
pedem pra ser esquecidos

Caem as horas
a hora morta é sempre a mais escura
na madrugada quente do interior
petróleo, grisado, prata, negro, obscuro
as noites solitárias
pedem pra ser enterradas

Perde-se tempo com falsos amores
Caímos
ou é fraqueza ou é injustiça
e só se sabe que é preciso levantar...


sábado, 30 de agosto de 2014

tão

tão perto do fim
o recomeço

tão perto de mim
mais um tropeço

tão deserto tudo enfim
que pereço

tão esperto, isso sim
foi o quanto lhe pareço

que não houve mão estendida
não houve afago
sequer abraço, em despedida



domingo, 10 de agosto de 2014

carnificina

havia gente demais
e anos demais para repassar
o tempo do ginásio
o tempo da banda marcial
de como o vento do outona era glacial

ainda lembrava da primeira festa de aniversário
do primeiro beijo, do primeiro disco da Legião
o tempo da névoa cobrindo a cidade
o tempo do amigo-secreto do final de ano
de como a paixão ocupava todo o primeiro plano

havia a sessão de cinema nos dias das crianças
[no cine Ipiranga
havia a festa de aniversário da cidade
[só brincadeiras e comilança
ainda lembro das primeiras horas melancólicas
do alvorecer da alma no fim da puberdade
dos sonhos intangíveis da mocidade

havia gente demais
gente demais para recordar
com o tempo veio a carnificina
saí matando um por um,
para, assim, retomar o eixo
abandonar o lamento
matar o saudosismo
porque não há nada
senão o presente

Ariranha, 10/08/2014 - 12h33

terça-feira, 29 de julho de 2014

ferrugem



nosso amor
por demais exposto à umidade
do pranto amargo 
do granizo parco
do soluço fraco
perdeu toda intensidade
e enferrujou

nosso amor
por demais exposto em histórias
no desastrado haicai
no decassílabo verso do soneto
no débil conto
perdeu toda a vitalidade
e morreu

nosso amor
por demais recoberto pela ferrugem
travou o maquinário
artérias, veias, músculos
e se oxidou todo
perdeu toda vicissitude necessária
que é preciso para crescer.

RIVA - 29/07/2014 - Ariranha (SP) 




sábado, 26 de julho de 2014

O dia infinito



Acorda-se e se vê a mesma textura de sempre
Os mesmos móveis nas mesmas posições
[há gerações
A tintura descascada próxima dos rodapés das paredes 
[cor de areia
O trepidar perene da veneziana do quarto de visitas
[vazio

A ansiedade deixada pelo último sonho 
[da última noite
As mesmas xícaras de café emanando 
[felizmente
fumaça, em inéditas firulas 
e nuanças de perfumes que acionam memórias infantis
O despertar.

E, aparentemente, são as mesmas gramíneas 
queimadas pelo frio que se despede
[nas alvoradas do inverno
Elas nunca aprendem a se proteger?

Os mesmos risos 
[leves risos
de um grupo de crianças à caminho da escola
e o vapor da respiração delas, flutuando e pintando
[com branco
o anil do céu  

A sôfrega corrida da mulher septuagenária
abraçada por seu cachecol cobalto
em direção à padaria
- Dois pães franceses e dois pães de queijo!
Porque com uma par de cada coisa
ela acaricia o seu velho
que ainda repousa em casa.

Uma pausa
entre dois pores do sol
e termina 
mais um dia infinito. 

RIVA - 26/07/2014 - Ariranha (SP) - Inverno

Imagem extraída do filme "A árvore da vida".

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os outros



Ao redor,
muitos olhos me observam
mas quem são eles?

Dentro,
a pulsação acelera
mas quem são eles?

- Isso não pega bem.
- Você não deveria...
- Isso é é muito aquém.
- Você podeira...

Em espelhos,
esses múltiplos julgamentos
se multiplicam
mas de quem são esses olhos?

No âmago,
o calor passa do coração à mão
mas quem sou eu?

- Apenas seja.
- Você consegue...
- Apenas aceite.
- Você está vivo!

Seja ao redor,
seja dentro,
em espelhos ou no âmago
os outros
outros olhos, outros olhares
outros julgamentos, outros deveres
os outros
sou eu
me podando
sendo cruel
me condenando
em tolas idealizações
me impedindo de voar livremente
em débeis insinuações

louvo agora o fato de ter descoberto
em tempo, no agora, no momento certo
que os outros são eu.

RIVA 22/07/2014 - 10H37 - Ariranha (SP)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

parece uma outra época
ver o véu da noite
nos cobrir tão cedo

parece uma outra época
sentir o frio dos ventos
nos tocar tão cedo

não me lembrava mais
d'outros invernos tão frios

gosto de observar os pássaros
alaranjados pelo pôr-do-sol
ritmados em seus voos fraternais

gosto de admirar as pequenas coisas
o perfume do chocolate quente
e seu arrepio, na harmonização das temperaturas

gosto do uivo do vento
gosto do cheiro do incenso
gosto do inverno
porque tudo parece menos intenso

eu não consigo mais escrever, que pena