terça-feira, 29 de julho de 2014

ferrugem



nosso amor
por demais exposto à umidade
do pranto amargo 
do granizo parco
do soluço fraco
perdeu toda intensidade
e enferrujou

nosso amor
por demais exposto em histórias
no desastrado haicai
no decassílabo verso do soneto
no débil conto
perdeu toda a vitalidade
e morreu

nosso amor
por demais recoberto pela ferrugem
travou o maquinário
artérias, veias, músculos
e se oxidou todo
perdeu toda vicissitude necessária
que é preciso para crescer.

RIVA - 29/07/2014 - Ariranha (SP) 




sábado, 26 de julho de 2014

O dia infinito



Acorda-se e se vê a mesma textura de sempre
Os mesmos móveis nas mesmas posições
[há gerações
A tintura descascada próxima dos rodapés das paredes 
[cor de areia
O trepidar perene da veneziana do quarto de visitas
[vazio

A ansiedade deixada pelo último sonho 
[da última noite
As mesmas xícaras de café emanando 
[felizmente
fumaça, em inéditas firulas 
e nuanças de perfumes que acionam memórias infantis
O despertar.

E, aparentemente, são as mesmas gramíneas 
queimadas pelo frio que se despede
[nas alvoradas do inverno
Elas nunca aprendem a se proteger?

Os mesmos risos 
[leves risos
de um grupo de crianças à caminho da escola
e o vapor da respiração delas, flutuando e pintando
[com branco
o anil do céu  

A sôfrega corrida da mulher septuagenária
abraçada por seu cachecol cobalto
em direção à padaria
- Dois pães franceses e dois pães de queijo!
Porque com uma par de cada coisa
ela acaricia o seu velho
que ainda repousa em casa.

Uma pausa
entre dois pores do sol
e termina 
mais um dia infinito. 

RIVA - 26/07/2014 - Ariranha (SP) - Inverno

Imagem extraída do filme "A árvore da vida".

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os outros



Ao redor,
muitos olhos me observam
mas quem são eles?

Dentro,
a pulsação acelera
mas quem são eles?

- Isso não pega bem.
- Você não deveria...
- Isso é é muito aquém.
- Você podeira...

Em espelhos,
esses múltiplos julgamentos
se multiplicam
mas de quem são esses olhos?

No âmago,
o calor passa do coração à mão
mas quem sou eu?

- Apenas seja.
- Você consegue...
- Apenas aceite.
- Você está vivo!

Seja ao redor,
seja dentro,
em espelhos ou no âmago
os outros
outros olhos, outros olhares
outros julgamentos, outros deveres
os outros
sou eu
me podando
sendo cruel
me condenando
em tolas idealizações
me impedindo de voar livremente
em débeis insinuações

louvo agora o fato de ter descoberto
em tempo, no agora, no momento certo
que os outros são eu.

RIVA 22/07/2014 - 10H37 - Ariranha (SP)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

parece uma outra época
ver o véu da noite
nos cobrir tão cedo

parece uma outra época
sentir o frio dos ventos
nos tocar tão cedo

não me lembrava mais
d'outros invernos tão frios

gosto de observar os pássaros
alaranjados pelo pôr-do-sol
ritmados em seus voos fraternais

gosto de admirar as pequenas coisas
o perfume do chocolate quente
e seu arrepio, na harmonização das temperaturas

gosto do uivo do vento
gosto do cheiro do incenso
gosto do inverno
porque tudo parece menos intenso

eu não consigo mais escrever, que pena

ausência

nem tudo na vida é dor
mas na maioria das vezes, algo dói


nem tudo na vida é ausência
mas em grande parte dos casos, é a falta que corrói

perdi mil coisas
e umas 
mais do que outras
perdi para a ausência

o amor não correspondido

ausente
o ciúme do amigo
ausente

a piedade pelo inimigo
presente

perdi mil coisas
em todas elas, 

tudo foram ausências

Faltaram
ou sanidade,
ou sinceridade
e se aparentemente tudo estava presente,
então ficava a saudade
que era o mesmo que a ausência de algo

por fim
perdi tudo
passou o tempo
perdi os amigos
ninguém me amou
fiquei órfão
minha juventude me deixou
perdi o viço
uma alma só, 

só desperdício

construir poemas 

é asseverar que se está ausente
absorto
onipresente

perdi mil coisas,
todas irrecuperáveis
exceto a vaga esperança
de desejar ser surpreendido...

RIVA, 31/07/2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Saída



Há dias em que acordo e procuro uma porta para sair. Uma porta que me permita sair de mim. Mudar de cômodo porque, onde estou, não mais me acomodo. Sou extremo desconforto. Talvez eu quisesse fazer como em "Quero ser John Malkovich". Entrar noutro corpo, noutra cabeça. Talvez eu quisesse ser Virginia Woolf. Outra alma, ainda que atormentada. Mas a porta está fechada dos dois lado. De fora, sou um. A impressão que os outros tem de mim. Mesmo no exercício da alteridade, ninguém consegue usurpar esse meu lugar. Intangível. Descrente. Deprimente. Vitorioso e lastimoso. Esse meu lugar: sempre visto como uma fraca impressão da verdade. Pelo lado de dentro, procuro a chave mas, nenhuma delas, nesse grande molho, abre a saída. Há chaves para a alma, para a intuição, para o amor, para a crença, para a descrença e para a dúvida. Há chaves para a ternura, para a gentileza, para as virtudes e para os defeitos. Mas não há nenhuma para a saída. Queria sair daqui de dentro. Viver outra vida, não outro personagem. Isso eu até sei fazer. Queria outro corpo, outra contemporaneidade, outros espaços, outros recortes. Posso eu ser outro? Quero abrir essa porta e sentir como seria a língua portuguesa brasileira pelos ouvidos de um estrangeiro. Seria musical também para mim? Seria agradável para mim, também? Queria sair daqui e nunca mais voltar. Esquecer o caminho. Nunca mais ter sensibilidade. Aqui dentro sei o preço que pago por ser sensível. Sinto mais. Amo demais. Aprofundo-me. No entanto, sinto muita dor.

Riva, em Lyon, 17 de junho de 2013.
É segunda. Estou distante.
E por um instante,
acordei eternamente
em berço esplêndido.

Procurei a porta
para adentrar à voz
que para alguns, destoa,
que para mim, ecoa.

Que lástima.
Não estou entre os meus.
Procurei-me e pensei em sair.
As coisas não andam boas.

As janelas, cerradas como os olhos.
Os olhos, marejados como o coração.
O coração, partido como minha solidão...
Despenco. Logo, desisto.

LYON - 17-06-2013